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Ricardo Mioto
Ricardo Mioto
Conteúdo patrocinado por Empiricus

Nove argumentos para a bolsa subir mais (e sete contra)

A bolsa brasileira e os demais mercados de ações no mundo estão tomados por um sentimento de otimismo. Dito isso, veja os fatores que podem dar continuidade ao rali e os pontos de risco a serem considerados

Ricardo Mioto
Ricardo Mioto
7 de junho de 2020
13:28
Mercados Ibovespa touros ursos
Imagem: Shutterstock

Proponho aqui um novo teste de inteligência. Chama-se Teste de Daniel Goldberg. Funciona assim: coloque alguém para assistir Daniel falar. Quanto antes o voluntário perceber que Daniel é mais inteligente do que ele, maior a sua inteligência.

Daniel Goldberg é sócio da Farallon — e a brincadeira acima é baseada numa piada que se fazia com Amos Tversky, psicólogo israelense. Ele fez um ótima live nesta semana com Luis Stuhlberger, CEO da Verde, que nem precisa de apresentações.

Daniel usou o exemplo de títulos de dívida de empresas para mostrar como os preços no mercado estão muito altos, ou seja, como os investidores estão comprando tudo que encontram pela frente.

A partir dos preços dos títulos, podemos calcular o nível esperado de default (ou seja, de falências, concordatas, recuperações judiciais) pelos investidores. Em outras palavras, qual porcentagem das empresas os investidores estão esperando que quebrem.

Diferentes métodos levam a coisas como 6% nos próximos 12 meses. Isso é o que está no preço. Nos Estados Unidos, e não é muito diferente no resto do mundo, o default já está em 5,5% nos últimos doze meses, porém.

“É incrível. Este é só o primeiro tempo da crise. Nas últimas semanas, uma grande varejista quebrou por semana nos Estados Unidos”, diz Daniel. “Como parâmetro, no pico da crise de 2008/2009, o default realizado foi de 13%.”

Como explicar isso? Os preços embutem uma expectativa de que o Fed vai comprar tudo e salvar todo mundo. Já disse que vai fazer isso.

Isso bate inclusive no Brasil. Daniel cita o exemplo da Embraer. Em março, que parece ter acontecido 20 anos atrás, a dívida da empresa negociava a algo entre 75 e 80 centavos no dólar. Era uma época em que todo mundo via uma chance alta de a redentora parceria da Embraer com a Boeing sair.

No caminho, deu tudo errado para a Embraer: a Boeing foi embora sem nem pagar o breakup fee, as empresas aéreas clientes não querem nem falar em novos aviões, a empresa queima caixa. O que aconteceu? Tem título de dívida da Embraer negociando a 91 centavos no dólar. Ou seja, os investidores estão aceitando rentabilidades menores do que antes!

“Não subestimem o efeito que a intervenção dos bancos centrais teve sobre a dívida das companhias brasileiras”, diz Daniel. “No final do dia, são os mesmos investidores.”

Ele cita outro caso anedótico: um ativo problemático que havia sido oferecido no passado ao seu fundo por ICPA + 22 ao ano reapareceu agora. Sendo ofertado a IPCA + 3.

O oba-oba é global. Não é sem razão que a Bolsa brasileira está quase nos 100 mil pontos de novo. “Estamos pegando uma carona no preço dos ativos. Os ativos brasileiros não param de melhorar, mas isso é um fenômeno global de emerging markets”, diz Stuhlberger.

E agora?

É difícil saber o que vai acontecer. Argumentos para os mercados continuarem melhorando:

  1. O emprego nos Estados Unidos está voltando rapidamente.
  2. China se saiu muito bem, com baixíssimo contágio, e o país é nosso maior parceiro comercial.
  3. Há talento ilimitado e dinheiro ilimitado procurando uma vacina;
  4. “Há uma revolução silenciosa do procedimento médico”, diz Daniel. “Em março, na França, alguém entubado tinha uma fatalidade de quase 80%. Agora, tá em 14%. Ninguém discute isso, porque não é sexy, mas é o desenvolvimento do protocolo, como não entubar prematuramente”.
  5. O Fed não vai parar tão cedo e são trilhões e trilhões;
  6. Não é uma crise baseada num problema econômico, e sim algo com mais cara de acidente natural, e a história mostra que essas retomadas são sempre rápidas.
  7. No caso do Brasil, estamos no mundo dos sonhos: inflação muito baixa, juro muito baixo e câmbio depreciado. Era o sonho de Bresser-Pereira, brincou Stuhlberger, embora sabe-se lá quão estável no médio prazo essa combinação se mostrará.
  8. As pessoas físicas do Brasil não panicaram: venderam pouca ação e não saíram comprando dólar deseperadamente.
  9. A tolerância a risco imensa mundo afora vai ajudar muita gente a levantar dinheiro para investir em projetos produtivos que até outro dia não parariam em pé.

Agora o lado ruim:

  1. O Brasil vai sair dessa muito mais endividado. Vamos ter mais de 10% de déficit nominal neste ano. Algo assim talvez não machuque os países ricos, mas nos afeta muito. “Não sei que tipo de mundo nos aguarda. A gente sai achando que foi convidado para a festa do Japão e descobre que está no baile da Argentina”, diz Daniel.
  2. Os fundamentos do Brasil são muito ruins. “A gente não cresce desde 2012, não tem aumento de produtividade, a saúde é um desastre, não tem melhora escolar, sem falar no problema fiscal que talvez algum momento acabe em aumento de impostos”, diz Stuhlberger.
  3. Nossos hospitais sucateados não capturam direito as melhores de procedimento médico que levam à redução da mortalidade nos países ricos.
  4. A vacina pode não ser tudo isso. “O mercado vai subir loucamente quando tiver anúncio”, diz Daniel, mas ele lembra que, com uma taxa de fatalidade real de algo como 0,3% a 0,6%, as pessoas vão fazer conta sobre os efeitos colaterais — e com a afobação por vacinar logo não vai dar tempo de testá-los propriamente.
  5. Com o governo em guerra com o Congresso e o Judiciário, a perspectiva de novas reformas não é nada boa;
  6. A taxa de juros global muito baixa, por um tempo muito prolongado, nos leva a uma situação desconhecida, com potenciais efeitos danosos ainda difíceis de apontar;
  7. O país pode flertar com o populismo e até com o caos político ou o flerte autoritário. “Eu tenho pesadelos pensando na Primeira Guerra Mundial. Como uma sucessão de eventos triviais leva a uma guerra em um verão em que todo mundo falava de prosperidade na Europa? Você nunca sabe onde uma sucessão de pequenas coisas — o Supremo se excede, o Executivo responde— pode levar…”, diz Daniel.

O que isso significa na prática no que se refere a investimentos? Mantenha uma posição em Bolsa brasileira, mas não muito grande. Tenha seguros contra catástrofe: dólar, ouro. (Até porque, se a situação global virar, nós vamos junto.)

Qual a melhor alocação? Quanto ter de cada ativo?

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